domingo, 4 de dezembro de 2011

Ó pai do ( Luso )

Ó pai desnaturado
Estás nas catacumbas trancado
Ou será enfastiado
Roga por nós pecadores
Poetas e maus actores
Acode, afasta este fardo

Mas apressa-te

Que o caldo está entornado
Eras um rapaz simpático
De porte altaneiro
Mas as frangas do capoeiro
Fizeram-te cabelos brancos
Agora por entre solavancos
Esvai-se a farinha do moinho
Ai pai, cada vez mais sozinho
Acode, faz lá essa fineza
Deixa-te de moleza
A poesia salta na rua
Na rua da amargura
Pai, olha a triste figura
Deste poeta estouvado
Não sabe ficar calado
Arre porra grita ele
Calado, antes capado
Ó pai afasta o pecado
Da casa da minha vizinha
Coitadinha, coitadinha
O castigo lhe foi imposto
Ó pai para meu desgosto
Riram as frangas aos saltos
E agora poetas nefastos
Só falam em injustiça
E tu aí com preguiça
Enquanto o circo pega fogo
Ó pai se queres que rogue eu rogo
Sai aí do teu cantinho
Traz a paz num cestinho
A este antro de maledicência
Porque o poeta sem paciência
Pega nas rimas na eito
E pai tu sabes não tem jeito
Nada o faz calar
Justiça é a sua bitola
Um peso e uma medida
Não é preciso ir à escola
Para ser gente na vida.



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O mesmo

O mesmo do mesmo
O mesmo de sempre
O mesmo desmente
Ou consente o mesmo

Meta fisicamente andamos
Mesmíssima mente falamos
Gritamos, reivindicamos
O mesmo
Do mesmo

Mas os asnos estão surdos
O mesmo torna-nos mudos
O mesmo
De um país em falência
Paupérrima dependência
Do mesmo.

O trabalho de erguer
De surpreender
Singular feição de
Irrigar e correr com os burros
Onde está no mesmo
Do mesmo
Prós mesmos de sempre.

O mesmo marasmo de números vincados
No mesmo de eras, no mesmo as feras
E o povo a mesma fome que consome
Corrói as andanças destrói as lembranças
O mesmo que medra na merda vincado.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Reencarnação do consagrado.


O morto saiu à rua
Ai Jesus que confusão
Ó meu qual é a tua
Volta lá para o alçapão

Logo se levantaram vozes
Correram a dizer olá
Credo cruzes, estranhas nozes
Que caíram do cabaz

Afinal o que era
Depressa deixou de ser
Era maneira singela
Da poesia enaltecer

A ideia até foi boa
Muitos ficaram visíveis
Agora como a meloa
Tudo tem tempo credível

Desfeita a confusão
Com os mortos que são poetas
Suas obras aí estão
Cheias de rimas excertas

Os mestres de outros tempos
Muito tem que ensinar
Regalem-se com os filamentos
Dos poemas de encantar

Mas tomem atenção
Não comam gato por lebre
Consagrados é certidão
De respeito que se deve.

poetamaldito




sábado, 29 de outubro de 2011

Altares

Içar altares de pedra evasiva
No cimo colocar pedra categórica
Pedir aos deuses a bênção e a dádiva
De o altar não desmoronar, caótica

É a prece sem eco e pelos vistos
Tudo cai da noite para o dia
Uma onda em maré vazia
Chega sempre sem avisar
Eu estou para aqui a pensar
Altares são acomodações da mente
Nada leva a palma e tudo era diferente
Se os  pés estivessem assentes no chão

Que se ergam altares e tronos
Os homens precisam de distracção
Que se ergam sonhos ao alto
Tendo sempre em conta o percalço
De que altares se estatelam no asfalto
Travando na boca o amargo
Da cegueira sem retenção.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Refilando

Refila, sim refila
Diz da tua caganeira
Refila de qualquer maneira
Corre e entra na fila
Refila mesmo asneira

No país das maravilhas
Era só o que falecia
Refilar sem entrelinhas
O jeito que isto faria

Porque não criar uma linha
Cada um que a utilize
Pode dizer mal da vizinha
E falar de politiquice

Mas, o poeta indolente
Quer mais senhor prior
Não basta gritar somente
O grito atrai calor

E pensou, pensou
Se pensou melhor o fez
A linha à merda mandou
E falou de uma só vez

Parem lá com o chifrim
Que ainda ficam roucos
Não basta respingar assim
Neste país de loucos

Refilar cedo se aprende
A mais pequena criancinha
Refila até surpreende
Com a conversa, é moínha

Moínha é afinal
O apagão que apaga
A memória o vendaval
Ai jesus mas que praga

O poeta jurou silêncio
No ano do vinte e um
Refilem, não me convenço
Mas está farto do jejum

Por isso o fuinha acordou
E agora é um ver se te havias
Toca a fazer burburinho
p`ra refilar aqui estou.



O caqueiro



O caqueiro espatifou-se
No chão desfez-se em bocados
O caldo por fim entornou-se
Restaram dez réis trocados

As velhas em algazarra
Remoeram de uma assentada
Logo instigaram a fanfarra
No tocar a debandada

Debando eu, debandas tu
A cada qual o seu quinhão
Abarcam as medidas em cruz
Arrolham olhos, satisfação

Ia alta a estação
Mas a sombra que saltou
Do caqueiro em aflição
Olhou em volta e gritou

Mais trocado menos trocado
Que diferença faz afinal
Isto está sossegado
Melhor assim que mais mal

Gritou o bento patudo
Com mania de saber
Antes morto que mudo
Tu estás a perceber

A sombra encolhidita
Encolheu os ombros marafada
Patudo mais vale mudo, acredita
Do que ser sombra finada
.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pai nosso do Facebook

Pai nosso que estais ausente
Na mulher de mais de quarenta
Dá-lhe senhor o presente
De pensar, pensar igual a noventa

Santa bárbara bendita
Acode ao homem maduro
Diz-lhe que ao fazer fita
Parece gaiato imaturo

Ó minha virgem santíssima
Acode-me dá-me visão
Eu não entendo a lástima
De tanto choramigão

Ó senhor do Bonfim
Eu não entendo o sentido
Acode-me olha por mim
Estou farta do ruído

Que prolifera no Facebook
Tanto hino ao disparate
Ó meu pai lá das alturas
Acode antes que atraque

Esta vontade maluca
De deitar abaixo, que se lixe
Sou poeta proscrita
Bota abaixo, não sou fixe

Ó meu menino Jesus
Não te esqueças do pedido
Corre e tira o capuz
A tanto post empedernido

De caminho olha por mim
Faz com que não perca o tino
Sou chata é por ser assim
Que não engulo o pepino

Nossa senhora das dores
Roga por mim pecadora
Rogai pelos autores
De tanta bombagem impostora

De caminho ao diabo peço
A deus e a todos os anjos
Que afaste p`ra sempre o tareco
E ao facebook dê arranjo.

Amem.